Autora: Aline Alves de Carvalho
Esta pesquisa se propõe, pela urgência do presente, a analisar e apresentar a epistemologia da História desenvolvida por José Saramago no conjunto de sua obra literária, tendo em vista sua crítica da democracia burguesa e o alerta sobre a permanente ameaça do retorno do fascismo.
Partindo do que o escritor chama de “estátua” e “pedra”, formas como caracteriza as duas fases do conjunto de sua obra, nosso estudo percorre a leitura que Saramago faz de vários períodos históricos, sempre a partir do ponto de vista do sujeito simples e anônimo, que não tem participação nos eventos registrados nos compêndios de historiografia tradicional, que narram a História como um conjunto de triunfos ascendentes das classes dominantes, escondendo as tragédias vivenciadas pela humanidade.
Para representar o referido ponto de vista, Saramago elabora uma técnica formal que rompe com o modelo tradicional de narrativa do romance burguês, inspirado nas narrativas orais tradicionais, cujo narrador é um sujeito do povo. Essa perspectiva afina-se com a concepção da História elaborada por Walter Benjamin, em suas “Teses sobre o conceito de História”, em que, no contexto do nazismo, intenta pensar a História a partir da ótica que não se define pela versão do poder e pretende revelar os fatos tais quais estão obliterados por aquele mesmo discurso e pela propaganda dos regimes fascistas.
Privilegiando a perspectiva do sujeito do povo, esse novo conceito de História inspira uma sociedade construída pela organização popular, que é a única que pode evitar novos estados de exceção. Resgatando, portanto, eventos históricos que pedem para ser revisitados, Saramago contraria a versão oficial disseminada pelo fascismo para pensar o passado, e também o presente pós-Revolução dos Cravos, em que a democracia burguesa promete novos tempos, mas que se mostra sempre em risco de ser novamente atacada pela barbárie, uma vez que as crises produzidas pelo sistema capitalista não tiveram interrupção.
A obra de Fernando Pessoa também é objeto de estudo desta pesquisa, uma vez que sua obra, apropriada pelo salazarismo, também é retirada da obscuridade por Saramago, e serve-lhe de ponto de partida para uma estética que representa o sujeito comum, rompendo com as narrativas construídas com fins de representação do poder.

